Anna Karenina: a história de Vronsky

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Um filme russo sobre uma história russa – a melhor história russa. Como parte da minha jornada russa desse ano e parte da minha admiração eterna por Tolstói, não poderia deixar de ver esse filme e por consequência falar dele por aqui.

São 2h18 min de filme que você nem sente passar, por isso, antes de mais nada, a dica já é: vá ver esse filme. Se você assistiu aquela versão inglesa de 2014 com aquela atriz de uma cara só, Keira Knightley, vá por favor corrigir a sua imagem mental dos personagens. O filme de 2014 até teve uma boa intenção, mas esse aqui, na minha opinião, chegou bem mais perto da alma do romance. Anna não é uma jovem mimada recém-saída de um navio pirata e com um rosto pré-fabricado para filmes de época. Vamos levar à sério essa história! Isso aqui não é um romance inglês do século XIX com mulheres querendo casar. Quando uma tá indo, a outra já tá é voltando.

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Tá, vou apanhar, e mereço. Isso não é uma reação aos livros, mas aos filmes.

Como é comum em filmes baseados em livros, temos curiosidade em saber a relação entre o filme e a obra e, no fundo, ou bem descaradamente mesmo, uma vontade de saber se é possível matar em 2h uma tarefa que com o livro levaria alguns dias ou semanas. Não é?

Vou dar essa reposta pra vocês. Não se preocupem, eu sei que filme e livro vão sempre ser diferentes, por isso se for possível ter uma ideia do livro pelo filme, não tenho problema em dizer. Se o filme for uma boa porta de entrada, você vai chegar no livro, que é sim, sempre o que mais me interessa, isso é verdade. Especialmente quando se trata de um romance de umas 800 páginas, sei que a expectativa do pulo do gato aumenta. Então lá vai. O filme é sim bem fiel ao livro, mas não, não pense que ele vai te dar uma ideia real do livro, vou explicar por que.

No meu entender o filme pode ser fiel ao livro de duas maneiras. Ele pode manter o enredo próximo ao criado pelo autor ou ele pode reproduzir a moral ou a visão de mundo e de personagem presentes na obra, sem necessariamente se ater ao enredo. A história de Anna retratada no filme de Karen Shakhnazarov acompanha o enredo do livro e também faz um retrato bastante complexo das angústias de Anna tal como no livro. Anna não é uma mulher presa às convenções sociais, ao que é esperado dela e nem mesmo a um sentimento de culpa ou de libertação, ela está presa a si mesma, a seus anseios nunca satisfeitos e a sua vontade de viver a verdade. Nesse sentido não somente o enredo é idêntico à obra, mas também a moral e a visão de mundo. Mas ser fiel não é necessariamente uma virtude e nem uma obrigação – estou falando da relação livro-filme.

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Apesar do filme ser muito bom e ter me agradado como uma oportunidade de mergulhar mais uma vez no universo criado por Tolstói, eu esperava algo bem diferente. O título do filme me enganou. Apesar do paradoxo de Anna a história de Vronsky, eu realmente pensei que o filme iria se desprender um pouco do romance, da sombra de Anna, e apresentar uma interpretação do roteirista/diretor do que teria sido aquela história de amor do ponto de vista de Vronsky, o seu amante, ou ainda do que teria sido a sua vida depois do suicídio de Anna. Mas não foi, o filme segue fielmente o fio da história conduzido por Anna. O fato de a história ser contada por Vronsky muitos anos depois a Serioja, o filho de Anna com o marido, Karienin, é somente um verniz de novidade, mas não altera de fato a visão de Tolstói sobre os acontecimentos.

Eu imaginei que o filme se aproveitaria da premissa do encontro entre Vronsky e Serioja em uma situação de vulnerabilidade para ambos, a guerra russo-japonesa, para que Vronsky pudesse se redimir diante do filho cuja mãe o abandonara para viver ao lado do amante. Imaginei, então, que a narrativa estaria focada nas angústias de Vronsky em meio ao romance clandestino vivido por eles e em como o suicídio de Anna havia afetado o restante de sua vida. Eu esperava algumas cenas criadas fora do livro e um pouco mais de inventividade do roteirista. Mas eu entendo, mais forte que a sombra de Anna sobre Vronsky é a sombra de Tolstói pairando sobre uma página em branco.

É verdade que o filme redime a imagem de Vronsky, o humaniza. O que acho muito justo, pois mesmo no livro, em alguns momentos, ele parece ser mais do que um galã aproveitador, mas só um pouco mais. Por outro lado, no entanto, achei que o filme desumaniza demais Kariênin. Tá certo, ele definitivamente não tem carisma ou beleza, é um velho orelhudo sem graça, mas lida com a complexidade do perdão, o que realmente não é muito humano, só que positivamente não humano.

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Das novidades que o filme traz em relação ao livro a principal delas é o contexto do acampamento-hospital de guerra onde estão Vronsky e Serioja e onde uma garota chinesa, Chun-sheng, fica vagando perdida entre os soldados feridos. A presença constante de Chun-sheng me pareceu uma alusão ao sonho que Anna tinha constantemente ao longo do romance e que teve, novamente, pouco antes de morrer. Anna sonhava com um camponês pobre, feio e maltrapilho que a olhava e lhe dizia coisas em francês. Esse sonho foi sempre para Anna um presságio de morte. Já Vronsky, por sua vez, vê, não em sonho mas em realidade, uma camponesa pobre e maltrapilha com quem conversa em mandarim (eu acho). Para ele, porém, Chun-sheng não causa temor, mas inspira compaixão. Ao final ele cede a carruagem que veio em seu resgate para a menina e, em um ato heroico, permanece no acampamento para enfrentar os japoneses que se aproximam. Enfim, um suicídio também, porém, aparentemente, menos dramático que o de Anna.

Esse é o filme. Muito bonito e muito sério. Mas não é nem de perto o livro. Por quê? Porque o livro Anna Kariênina não é sobre Anna Kariênina. O romance existe a partir do paralelismo criado em torno dos eixos Anna e Liévin, outro personagem do romance, que ocupa pelo menos metade da história e que puxa outro frio narrativo para o tema do amor. O livro não é, portanto, sobre um personagem apenas, mas sim sobre um tema maior que eles, e maior que qualquer um de nós. É um romance sobre o amor e sobre a verdade, sendo Anna e Liévin duas formas diferentes de encará-los; Liévin é luz, Anna é sombra. É possível contar somente a história de Anna ou somente a de Liévin, porém sem acompanhar as duas em paralelo, se está, no meu entender, muito distante da alma do romance. Não sei por que Tolstói deu o nome de Anna como título, nos primeiros rascunhos da obra o título seria “Dois casamentos” ou “Dois casais”, bem mais informativo, porém bem menos dramático, é fato.

O filme é muito bom, mas assisti-lo não vai te dar uma ideia real do romance. Assista o filme pelo filme, pela sua própria proposta, a qual é realmente bem realizada. Mas leia o livro pelo livro, afinal existe um motivo para essa história sobreviver há tanto tempo. Além do mais, por melhores que sejam os filmes e adaptações de outros artistas, a história é do Tolstói, e ela está nas linhas de um livro. Não tem jeito, transforme essas duas horas em dois meses e encare as 800 páginas, não há nada que substitua essa experiência, ainda bem.

 

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A vendedora de livros

De começo não gostei muito, de final gostei só um pouquinho mais. Mas vai sair um filme dele com a Julia Roberts e também minha opinião não conta mais do que um lugar na lista dos mais vendidos na New York Times. Então continua lendo que vou contar um pouco sobre A vendedora de livros e você vai ter uma dica a mais pra decidir se vai ler o livro ou se esse vai ser mais um dos “não, mas já vi o filme”.

Não vou dar spoiler.

Fiz a assinatura do plano “inéditos” da TAG livros e esse foi o meu primeiro livro (kit) recebido. O livro é editado pela Suma (selo da Cia. das Letras) e, até onde sei, disponível somente para assinantes do clube. Se você virar assinante do clube poderá compra-lo ou então pode ler em inglês na versão digital.

Por que não gostei muito de começo? Bom… porque começa assim ó:

Este não é meu quarto.

Onde estou? Ofegante, puxo até o queixo um cobertor que não reconheço, tentando organizar os pensamentos, mas minha mente não me dá nenhuma pista de onde me encontro.

Não gosto de livros que já começam apelando. Parece-me que é algo comum hoje; o cinema, o youtube, o Stories, há histórias em todos os lugares, a concorrência é grande e nenhum leitor quer perder tempo, ele precisa entrar logo na narrativa, se não o autor perde para o próximo alarme de celular. Então é assim, a garota já está em um lugar desconhecido, sem pista nenhuma! Toma essa, leitor! Vem comigo desvendar esse mistério! Particularmente prefiro um narrador um pouco mais calmo, um narrador mais “calma pessoal, senta aí que vou contar uma coisa pra você. Ah! Não quer saber? Tá bom, vai em paz”. Mas aparentemente é assim que se começa um best-seller, assim como se deve começar uma redação de vestibular com “nos dias de hoje no mundo globalizado….”. Tem vezes que é preciso apelar, fazer o quê? Funciona.

Me deu vontade de escrever um post só sobre começos de livros, mas vou guardar para o começo do ano que vem.

Ok, então a coisa não começou bem pra mim, mas não julgue um livro pela capa e nem por suas primeiras linhas. Eu fiz exatamente isso, mas fui até o fim, e melhorou, só que tive que passar por cima de alguns obstáculos.

Além do começo, outro obstáculo no meu caminho foi a edição. O título “A vendedora de livros”, que é a tradução literal do original The bookseller, e a chamada “nada é tão imutável quanto parece…” me levaram para dois lugares aos quais geralmente não gosto de ir. O lugar do booklover e o lugar da autoajuda. Mas Jade, você não é uma booklover? Sou, sou sim. Mas isso foi algo que aconteceu comigo, eu preferia ser mais cool ou mais heavy metal, porém não foi o que veio pra mim. Mas se já sou assim, não gosto de ficar vivendo em torno disso, exaltando isso – não muito. Pois bem, a protagonista é mega booklover, ela tem uma livraria junto com a amiga e tem um gato, uma coisa que junto com café, óculos e peles pouco bronzeadas parecem compor o kit booklover. Em minha defesa, eu tenho fobia a gatos, fiz uma cirurgia para correção de miopia e tento ir ao Rio de Janeiro sempre que possível, não é minha culpa se chove.

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Kitty, a protagonista, faz o estilo solteira bem resolvida, porém sonha todas a noites que ela é, na verdade, Katheryn, uma mulher casada, mãe de crianças adoráveis, e que tem uma casa legal, um carro legal e uma empregada mexicana. Aí você junta essa informação com a chamada do livro e pensa “Ah! Ela vai perceber que é infeliz solteira e vai encontrar o amor da sua vida. Mas pera, isso é muito óbvio e ultrapassado. Não, ela vai descobrir que pode ser dona de sua própria história, que pode mudar a sua vida sozinha, que não precisa de marido, de filhos, de nada! Agora sim, bem mais contemporâneo”. Estão vendo? A edição me levou a lugares ruins? Ou sou eu que sou desconfiada demais?

Mas apesar do apelo booklover, o título The bookseller talvez tenha servido só pra atrair leitores e sell the book mesmo. A profissão de Kitty podia ser qualquer outra que isso não faria diferença para o enredo. Em português o título fica ainda mais apelativo porque acaba colocando o livro na onda das garotas: A menina que roubava livros, A garota do trem, A garota do calendário… Se bem que “a vendedora” pode gerar uns títulos bem chamativos também “A vendedora de sonhos”, “A vendedora de crianças”, “A vendedora da Hinodê” etc.

A capa da edição americana, da HarperCollins, também não diz muita coisa sobre o livro, mas atrai booklovers. A capa da edição da TAG com a Suma ficou melhor na minha opinião, traz mais informações sobre o que é realmente a obra, embora ela reforce ainda mais a cara “girly” do livro, o que não é um grande problema, pois parece ser esse mesmo o público alvo. Eu vi também a capa alemã na Amazon, e é a minha preferida das três, diz menos do que a brasileira, mas é um pouquinho mais sóbria e por isso me agrada, me passa um pouco mais da calma que eu gosto em um livro.

capa americana      capa alemã      capa brasileira TAG
Vencidos os obstáculos, prosseguimos com o enredo. O enredo gera curiosidade. Sabemos que Kitty sonha com outra vida, mas e aí? Ela vai querer ir atrás de viver essa outra vida? Ou vai descobrir, ao contrário, que a sua vida já é muito boa? Quem é esse cara com quem ela sonha todas as noites? Qual é o problema que ela vive na vida dos sonhos mas que não consegue se lembrar? Que tipo de relação ela tem, de fato, com a sua melhor amiga, Frieda? A história vai se desenrolando em pequenos mistérios que vão nos empurrando até o final. Mas vamos com pressa. Lembram do que eu falei, o narrador apressado? A narração, para mim, não é interessante o suficiente para me fazer acompanhar os detalhes insignificantes pelo prazer de simplesmente ouvir o narrador. Nos momentos em que a história se detia nas descrições das rotinas de Kitty e Katheryn eu perdia a paciência e pulava um parágrafo sim outro não. Mas o livro é bem equilibrado e não há momentos longos de tédio, a história vai fluindo sempre e dá pra ler rápido.

Também não me identifiquei com os personagens, nenhum. Embora eu seja parte do público alvo dessa literatura chick-lit – mulher contemporânea vivendo uma grande cidade tentando conciliar amor, família, trabalho e independência – não consegui entrar no drama dos personagens. Acredito que personagens bem construídos são adoráveis independente de você ter algum contato com o tipo na vida real, quando termino de ler um bom livro fico sentindo saudade dos personagens. Mas às vezes acontece de o livro não ser tão bom, mas o personagem ser tão parecido com você que você lê por uma espécie de curiosidade narcisista. No caso de A vendedora de livros nenhuma das duas opções funcionou pra mim.

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Duas coisas, ao final, me chamaram atenção positivamente. A primeira delas é que a autora não deixou a narrativa cair em discussões polêmicas sobre o feminismo e não tentou dar uma resposta para a questão “o que as mulheres devem fazer da sua vida?”. As mulheres decidem o que fazer da sua vida, e eu vou contar uma história sobre algumas dessas possíveis escolhas. Ponto. No final, ao contrário do que a chamada do livro me levou a entender, a questão não é sobre qual vida Kitty deve ter, mas sobre como lidar com a vida que ela já tem. Aí entra o segundo aspecto positivo, que, ao meu ver, só vai ficando mais evidente do meio pra o fim da história. O romance deixa de ser sobre eventos, a rotina da personagem, e começa a ser sobre o seu mundo psicológico. Não de um jeito Clarice Lispector, mas quase como um uma história de suspense. Quase. Na minha opinião, se a autora tivesse explorado mais o suspense e menos  o chick-lit o livro seria melhor, mas aí pode ser mesmo uma questão de gosto. Mas falando nisso, parece que o novo livro dela, lançado esse ano, vai mais por essa linha mesmo. Li a sinopse e me pareceu mais interessante, também gostei mais do título, da capa e do primeiro parágrafo.

Outro aspecto interessante, e que eu talvez não tenha aproveitado bem por ignorância mesmo, é a ambientação da história. A história se passa nos anos 1960, na cidade de Denver, no Colorado, EUA. Há referências de época que desconheço e também um bom passeio por Denver, do qual fiquei de fora por não ter referências sobre essa cidade. Uma coisa que acho que pode ajudar o leitor que, como eu está fora desse ambiente, a entrar no clima é a playlist criada no Spotify pela TAG com todas as referências musicais mencionadas no livro. Está muito boa, vale a pena ir lá e ouvir, procure pelo perfil deles lá.

Apesar de eu não ter gostado muito do livro, acho que foi uma boa escolha da TAG Inéditos. É um best-seller, vai sair um filme sobre ele e a autora já está no seu segundo livro lançado. Essa é a proposta desse plano de assinatura que eu escolhi, e a minha ideia é mesmo conhecer mais do que está fazendo sucesso por aí e diversificar meu estilo de leitura. De qualquer modo, um filme com a Julia Roberts e com a trilha sonora proposta no livro já é o suficiente para me levar ao cinema em uma tarde qualquer de domingo. Coloque a música Feeling good na voz de Nina Simone e imagine a Julia Roberts com as montanhas de Denver ao fundo em uma tomada bem hollywoodiana. E sim, na minha opinião, esse pode ser um da lista “não, mas vi o filme”.

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Denver, Colorado, EUA.

Anna Kariênina

 

Uma vez assisti na TV um julgamento no STF e ouvi uma frase que me chamou atenção. Eles falavam algo sobre o direito penal e um deles comentou sobre assassinato por motivo fútil, citando o adultério como exemplo. Bom, pensei, para a literatura não existe motivo fútil, e me lembrei de Anna Kariênina.

Anna Kariênina

Anna Kariênina por Henrich Matveevich Manizer

Anna Kariênina é daqueles livros clássicos que são sempre citados nas listas de grandes romances já escritos e que você desconfia se é mesmo uma grande obra ou se as pessoas estão só acostumadas a dizer isso há um século, literalmente. Eu pelo menos sempre desconfio… Comecei a lê-lo, então, com aquele espírito resignado: “ok, lá vamos nós para mais um cláááássico, giganteeeesco, antiiiiigo, ruuuuusso…” Mas logo descobri que ele não é um livro do passado, é um livro de hoje, é genial e se tornou meu livro preferido até agora.

Cabe de tudo ali dentro. Um livro para os que gostam de histórias de amor, um livro para os que gostam de análises sociais, um livro para os que gostam de reflexões existenciais, um livro para os que gostam de drama. Mas admito que é uma resposta um pouco preguiçosa, já que se pode dizer que encontramos mesmo um pouco de tudo em todos os bons romances. Sendo assim vou dizer que Anna Kariênina é um romance sobre o amor, sobre como conviver com ele e sobre como ele nos afeta profundamente.

Sei que a internet, e os blogs em especial, é um lugar para textos curtos e que, portanto, eu deveria fazer um breve comentário sobre a obra, porém acabei escrevendo um resumo do livro com spoiler e tudo. Não resisti, sabe quando você vê algo muito bom, você quer contar tudo, foi o que aconteceu. Mas olha, se você vai ler Anna Kariênina tem que estar preparado para muitas páginas. Sei que eu não escrevo como Tolstói, mas considere essa sua leitura como o alongamento para a grande partida.

O romance se inicia com uma briga entre Dolly e Oblónski, irmão de Anna. Dolly descobriu que o bonachão do marido a estava traindo, e não pela primeira vez! E Anna vai de São Petersburgo à Moscou para convencer a cunhada a perdoar o marido e não desfazer o casamento. Em sua breve estadia em Moscou, Anna conhece o conde Vrónski, com quem flerta em um daqueles bailes da alta sociedade que estamos acostumados a ver nos romances do século XIX. Mas acontece que antes de conhecer Anna, Vrónski estava “fazendo a corte” à Kitty, irmã de Dolly, e Kitty, por sua vez, dispensa uma proposta de casamento considerando que Vrónski seria o melhor partido. Depois que Kitty percebe que se deu mal, que Vrónski chamou Anna em seu lugar para dançar a mazurca, ela fica doente, deprimida, com raiva de Anna – enfim, uma confusão adolescente. A proposta de casamento recusada foi a proposta feita por Liévin, um velho amigo da família Cherbátski (a família de Dolly e Kitty), um jovem meio esquisito, meio inseguro, que administra uma propriedade rural e não é lá muito dado à convivência na sociedade moscovita. A recusa de Kitty gera nele um efeito desolador, pois ele estava realmente apaixonado pela moça. Mas ele decide tocar a vida adiante. É como quando você tira uma nota ruim, ele pensa, no começo você fica vermelho de vergonha, triste, mas depois o tempo passa e você lembra com espanto que um dia se afligiu por aquilo.

Oblónski dirá a Liévin que “toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e luz”. Poderíamos, muito bem, trocar “vida” pelo romance “Anna Kariênina” e teríamos aí uma acertada avaliação sobre essa obra.

Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza de “Anna Kariênina” é feita de sombra e luz.

Pensando desse modo, Liévin, ao que me parece, será o personagem em busca da luz, em Anna, por outro lado, veremos a vida de sombras.

Falando então em luz e sombra, talvez já seja tempo de dizer que o romance é construído em um jogo de oposição. A oposição Anna x Liévin, os dois personagens principais, a oposição entre os casais Anna & Vrónski e Liévin & Kitty e a oposição Campo x Cidade.

No começo da relação entre Anna e Vrónski, a trama parece seguir o padrão das histórias de adultério à exemplo de “Madame Bovary” e “O primo Basílio”. Uma mulher interessante, um marido chato, um amante atraente. É claro que aos olhos da mulher interessante, nesse caso, o marido sempre será chato e o amante sempre será atraente. Realmente, as descrições da relação entre Anna e Aleksiei Kariênin, o marido, são as mais frias possíveis. Ele é o cara bem sucedido profissionalmente e que faz pouco caso da esposa. Só não ficou mais antipático porque, na minha opinião, a própria Anna é, desde o começo, uma chatinha também. Mas enfim, Aleksiei é o cara que diz pra esposa que acabou de chegar de viagem “Ah pois é, não vou mais jantar sozinho agora, mas olha, eu já estava bem acostumado”. Pontos para o amante evidentemente.

Vrónski parece logo de cara meio cafajeste. Estava flertando com Kitty e depois, de repente, se encanta por Anna e não importa nem um pouco pra ele, nem um pouquinho sequer, o fato de ela ser casada. Ele é o jovem bonitão do exército, que mora longe da mãe e que leva a vida que quer sem se importar com mais nada ou ninguém.

Anna, no entanto, diferente de suas companheiras na literatura, Emma e Luísa, nunca é descrita como uma romântica ingênua, facilmente influenciável pelo amor romântico dos folhetins burgueses. This is Russia! E os russos não vão se rebaixar a esses sentimentozinhos simples dos europeus. Anna é movida por uma vontade que vem dela mesma, o que, eventualmente, a levará à ruína. A podridão está em nós e, por nossa causa, no mundo também, não contrário.

Mas enfim, até mesmo Vrónski e Aleksiei se tornam mais complexos com o desenrolar da história. Aleksiei não é assim tão apático, nem Vrónski tão cafajeste.

Há uma cena muito interessante em que Vrónski participa de uma corrida de cavalos. Uma cena que, para mim, é muito simbólica e prenuncia o destino de Anna, mas vou poupá-los dessa divagação. Para os que decidirem ler o romance, deem atenção a ela quando chegarem lá.

Voltemos ao Liévin, meu personagem preferido. Liévin está de volta à sua fazenda, onde recebe a visita do irmão Serguei, um intelectual que vive em Moscou. A estada de Serguei no campo traz à tona a oposição campo x cidade que eu havia falado anteriormente. Serguei tem aquela visão que provavelmente todos nós que vivemos na cidade temos do campo: “ah o campo! Que lindo lugar para descansar, que paz, que beleza, aqui é onde se vive bem!”. Para Liévin, no entanto, o campo é simplesmente o lugar onde se vive, sem romantizações, e onde ele precisa trabalhar a fim de obter o seu sustento e, ainda mais importante, manter em boas condições aquilo pelo qual sua família trabalhara, afinal, o trigo não se plantará nem se colherá sozinho. Vai ficando claro que não é tanto o caso de Serguei gostar do campo é que ele o vê em oposição à cidade, e como quer descansar dos seus problemas, o campo é, para ele, um lugar de escape e não de vida. Ele come, lê, acorda tarde. Liévin, no entanto, vai para o campo ceifar junto com os mujiques.

A convivência de Liévin com os camponeses, os mujiques, desperta nele o desejo por uma vida mais simples, não simples economicamente, pobre, – e aliás, mais à frente ele criticará aqueles que reduzem a situação do trabalhador ao ponto de vista do capital, do salário e da renda. Uma vida que no trabalho se redime: “Deus deu o dia, Deus deu as forças. E o dia e as forças são consagrados ao trabalho e, no trabalho, têm sua própria recompensa. Mas para quem é o trabalho? Quais serão os frutos do trabalho? Tais reflexões eram descabidas e fúteis.”

Uma vida “trabalhadora, pura e de um encanto coletivo”, é isso o que Liévin aprende dos mujiques e é isso o que buscará para si.

Realmente o mujique de Tolstói (em Anna Kariênina, pelo menos) não é o mujique de Tchekov. Embora sejam discutidos alguns dos problemas da vida no campo – saúde, educação, terras – eles realmente não são colocados como aquilo que define essa classe de personagens.  Sei que para muitos a primeira coisa a ser dita é que Tolstói tinha uma visão romantizada dos camponeses, não nego, mas não acho que o romântico seja irreal; os mujiques podem ser mais pobres, o que não significa que tenham uma vida interior igualmente pobre e que sejam menos complexos que ricos fazendeiros como Liévin ou inteligentes burgueses como Serguei.

É, enfim, um prato cheio para os que gostam das análises sociais. As conversas de Liévin com o irmão são muito inteligentes, e inclusive trazem um ponto de vista muito diferente (pelo menos do que eu tenho visto) sobre questões como trabalho, bem comum, governo, escolarização rural, nobreza, namoro, europeização e agricultura. Se você gosta de tudo isso, pode ir direto para essa parte. Eu disse! “Um romance sobre tudo”.

Se começamos com a visita de Serguei, terminamos com a visita do outro irmão, Nikolai, a quem Liévin sente-se mais ligado.

Nikolai está muito doente, e a sua visita desperta em Liévin um temor diante da morte, a qual se transforma em uma sombra em meio aos seus projetos: “Eu trabalho, desejo fazer uma coisa, mas esqueci que tudo termina, que existe a morte.”

 Kitty e Liévin se reencontram e se acertam. Essa parte é bem bonita e se desenvolve com a graça e o vagar de uma clássica narrativa de amor digna de suspiros.  Liévin,  que em uma visita a Oblónski em Moscou havia lhe confessado seus temores de morte, depois de declarar-se mais uma vez a Kitty e ter, agora,  seu amor correspondido, responde:

– Quer dizer então que já não é hora de morrer? – perguntou Stiepan Arcáditch, apertando a mão de Liévin com emoção. – Nããão! – respondeu.

No lado das sombras, Anna. Anna dá à luz a sua filha com Vrónski, porém fica muito debilitada com o parto e chega a pensar que irá morrer. Nesse momento, pede ao marido que venha vê-la, pois ela quer lhe pedir perdão –Anna já não está vivendo com ele na mesma casa, está numa espécie de “casa de férias” da família. Aleksiei hesita, mas ao vê-la acaba cedendo ao pedido de perdão da esposa. Essa parte é bem interessante porque o Aleksiei frio e sem graça que tínhamos visto até aqui, é agora inundado por “um alegre sentimento de amor e de perdão dirigido aos inimigos [que] enchia sua alma.” Ele não somente perdoa Anna, como quer se dedicar a cuidar dela e da filha que ela acabara de ter, e por isso pede a Vrónski que a deixe, e que lhes dê a chance de retomar, sabe-se lá como, a vida que tinham. Vrónski sente-se humilhado, pois vê que os papéis se inverteram e ele, agora, é o cara mau. E de repente sua paixão por Anna, que havia esfriado bastante nos últimos tempos, reacende agora diante da chance de perdê-la. Parece até um pouco egoísta.

Anna se recupera, já não vai mais morrer. Mas as palavras de arrependimento passam, o perdão já não mais a comove, a perturba, e a verdade é que ela já não aguenta mais o marido, mas agora não é que ele seja chato, que ele seja ruim, é ela quem não consegue mais conviver com ele, e essa parte da história se encerra com a fuga de Anna e Vrónski para o exterior – a Europa, no caso.

Se até aqui o amor entre Kitty e Liévin tem sido digno de um filme romântico antigo, o dia do casamento é uma comédia romântica moderna. Liévin praticamente deixa a noiva esperando no altar porque a sua roupa não chegou a tempo. É engraçado, é o começo do “felizes para sempre” .

 Na parte em que “o para sempre” é contado, a vida cotidiana dos casais Kitty & Liévin e Anna & Vrónski é retratada. Gosto muito da maneira como são descritos os primeiros anos de casamento de Kitty e Liévin, um período “muito prazeroso e também muito difícil” em que Liévin lida com o fato de dar lugar a outra pessoa em sua vida antes tão particular. Ele percebe que ele e Kitty são, de uma certa maneira, a mesma pessoa a partir de agora. Sem dúvida, uma visão bastante cristã do casamento que se manterá até o final do romance.

Para Anna e Vrónski, cujo relacionamento já se desenrola há mais tempo, os problemas haviam vindo mais cedo. Pesadelos à noite e desentendimentos durante o dia já eram comuns, mas agora que os dois vivem realmente juntos eles começam a se acentuar diante da nova situação em que se encontram. Embora estivessem felizes na Europa, o retorno à Moscou, a lembrança do filho que ela abandonara – Serioja, o filho de Anna e Aleksiei – e a falta do que fazer “socialmente” minam a vida de Anna e Vrónski.

Fazendo uma comparação entre o que, na minha visão, seria o lado da luz e o lado da sombra, diria que enquanto Anna e Vrónski rapidamente se apaixonam e rapidamente se entregam um ao outro, para Kitty e Liévin isso só acontece depois de um longo período de amadurecimento de cada um individualmente. Tanto Kitty quanto Liévin se tornaram mais seguros de si mesmos, mais conscientes dos problemas da vida, e o seu casamento começa de forma pacífica. O relacionamento de Anna e Vrónski começa no escuro, minado de incertezas: Ela deverá abandonar o filho? Ele deverá abandonar a carreira e sua liberdade?

Mas tanto Anna quanto Liévin lutam com o conflito interno causado pela união com outra pessoa, um certo abandono de si. Para Liévin isso representa a perda de sua liberdade masculina, como ele chama, pois já não se sente livre para pensar apenas em si mesmo. Para Anna isso representa reconhecer a necessidade vital do amor de outra pessoa, depois de tudo o que ela teve que abrir mão, ser amada por Vrónski se torna tudo o que lhe é necessário para viver. Aí está seu maior problema.

Anna se torna, então, definitivamente uma mulher ciumenta e insegura, as brigas ficam cada vez mais constantes, e ela começa a fazer a perigosa pergunta “por que você não me ama?” Não é um draminha besta, essa dúvida quanto amor e esse medo de perder aquilo que lhe é tão caro são sentimentos reais que a atormentam e que levam Anna a tomar calmantes e – agora a parte que nos compromete – comprar muitos livros! “Encomendava todos os livros mencionados com elogios nas revistas e nos jornais estrangeiros recebidos por ela e, com aquela atenção à leitura que só os solitários conhecem, lia-os até o fim”.  Para piorar sua situação, Anna vive em uma espécie de limbo social, não está nem casada, nem divorciada. Diante disso, ela enfrenta a rejeição de parte da sociedade aristocrática e eventualmente “adota” uma pequena sociedade para si – uma família de empregados de sua casa – a fim de ocupar seu tempo e sua vida. Vrónski, por outro lado, apesar de ter abandonado sua carreira no exército encontra outros afazeres no período em que eles vivem no campo e quando estão na cidade, seu “habitat natural”, não enfrenta as mesmas dificuldades que Anna em se adaptar a sua nova situação social. Inevitavelmente, com o tempo, ele começa a sentir que Anna é um incômodo para ele, um incômodo amável, mas ainda assim um incômodo. É provável, aliás, que em sua cabeça ecoe a voz de seu amigo Iáchvin: “Uma esposa é um transtorno e, se não for esposa, é pior ainda”.

Para todos ao seu redor, inclusive Dolly, que um dia vai visitá-la, Anna parece radiante, é o retrato da mulher segura e corajosa que enfrentou as dolorosas consequências de suas escolhas, mas que pode sentir-se feliz por ter tido a chance de ao menos fazer uma escolha. A própria Anna, porém, angustiada em sua insegurança, cogita a ideia de suicídio.

Enquanto isso, Kitty e Liévin vivem uma fase mais madura do casamento, estão já à espera de seu primeiro filho. Acompanhar a vida desses personagens  é um descanso para o coração que se atormenta a cada página quando estamos ao lado Anna. Na vida de Kitty e Liévin, não acontecem grandes reviravoltas dramáticas, o mais perto disso seria uma cena um tanto engraçada em que Liévin expulsa de sua casa um hóspede que estava paquerando Kitty descaradamente e a mudança temporária para Moscou a fim de esperar lá o parto de Kitty.

Liévin, de volta à Moscou, nos coloca novamente diante daquele rapaz inseguro e desajeitado do início do romance, um peixe fora d’água.

Porém “Não há situação a que uma pessoa não possa habituar-se, sobretudo quando vê que todos à sua volta vivem assim.” Depois de um tempo em Moscou, Liévin acostumou-se um pouco com a “vida sem propósito” da cidade, já não gastava seu dinheiro com o mesmo espanto de antes e se permitia algumas visitas sociais e umas vodcas no clube com os rapazes. Nada que chegue a desvirtuar o nosso bom moço, porém.

Há que se dizer que há um único momento do romance inteiro em que os personagens Anna e Liévin se encontram. Oblónski convence Liévin a ir com ele visitar a irmã. Liévin hesita um pouco, afinal Anna é uma mulher mal falada e, pior ainda, um desafeto de sua esposa, mas acaba indo. Ao chegar lá, se depara com um grande retrato de Anna, feito por um pintor russo com quem Anna e Vrónski tiveram contato durante o seu tempo no exterior. Liévin admira o belo retrato e não deixa de se encantar por Anna quando a vê pessoalmente. Anna flerta com Liévin, quer chamar a sua atenção, porém esse é mais um capricho do seu triste jogo “por que você não me ama?” Logo que Liévin e Oblósnki deixam a sua casa, ela os esquece e fica se perguntando por que ela consegue seduzir um homem íntegro como Liévin e não um homem – não tão íntegro assim – como Vrónski.

Liévin volta pra casa, Kitty fica chateada com a demora do marido e com a visita à Anna, mas como o bom casal que eles são – e já tô sabendo que “Liévin” Tolstói não era assim tão bom – eles não vão dormir sem fazer as pazes.

Na mesma noite, Kitty sente as contrações e entra em trabalho de parto. A versão Liévin preparando-se para ser pai é tão cômica quanto Liévin preparando-se para ser marido, mas é, na minha opinião, o nervosismo misturado a uma ingênua seriedade o grande encanto desse personagem.

Um bebê nasce, uma mulher morre. Agora o super spoiler que já não é tão spoiler assim, afinal não dá pra guardar esse segredo por mais de um século. Anna afunda-se cada vez mais em seu desespero e, em uma tentativa trágica de ao mesmo tempo vingar-se de Vrónski pelo seu imaginado abandono e traição, e de dar um fim em seus sofrimentos e em sua solidão, joga-se embaixo de um trem para morrer.

A última parte do livro é dedicada ao desfecho de Liévin. Em seu caso um desfecho de luz, e não de sombra. Liévin vivia uma crise de fé, pois tendo abandonado o cristianismo não havia conseguido encontrar ainda uma resposta para os problemas de sua vida. Ele queria acreditar, via que todas as pessoas admiráveis a quem conhecia acreditavam, ele, porém, não conseguia ter fé. Ele quer saber como viver, mas senti que quanto mais se aplica a encontrar uma resposta para isso, mas longe ele está da verdadeira sabedoria, e isso o levava ao desespero e até mesmo à vontade de tirar a própria vida. Um dia, porém, um mujique lhe diz que ele é um homem bom, que não pensa apenas em si, mas vive de modo correto, sabendo existir coisas maiores. Ao ouvir essas palavras, Liévin percebe que a fé que ele tanto buscava já era parte de sua vida.

 Uma cena cheia de inteligentes afirmações de fé e do reconhecimento da graça divina.

Depois de seu momento epifânico, Liévin volta para a sua casa cheia de visitas e agregados, para a mulher e o filho recém-nascido, e volta a se deparar com a vida não epifânica que levamos na maior parte do tempo. Ele mais uma vez se exalta com as opiniões do irmão, Serguei, diz coisas que não gostaria de dizer e pensa coisas que não gostaria de pensar. Por fora é o mesmo, mas só ele vê a mudança que havia lhe acontecido por dentro.

A célebre frase que abre o romance é: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Depois disso vem “Tudo era confusão na casa dos Oblónski”, e embora essa frase sirva para anunciar a briga entre Dolly e Stiepan Arcáditch Oblónski, que mencionei no início, ela pode servir para resumir a situação desse casal no romance inteiro.

O romance que havia começado com uma família em confusão, termina com uma família em paz. Não porque não existam dificuldades ou porque seja fácil ser feliz, mas porque tanto a felicidade quanto a infelicidade são trilhadas por cada um a sua maneira. De alguma forma, nem todas as famílias felizes são iguais, também.

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Eu li na versão Kindle da edição da Cosac Naify. A Cia. das Letras adquiriu os direitos dessa versão. Trata-se de uma tradução direta do russo, feita por Rubens Figueiredo. Essa edição da Cia. das Letras traz ainda um posfácio sobre os sonhos de Anna no decorrer da narrativa e sua relação com o enredo da obra, além de uma lista de personagens e árvore genealógica. Vale a pena investir em uma boa edição da obra, e essa é, na minha opinião, uma delas.

Nikolai Gógol

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Nikolai Gógol

“Vamos tesouro, não se misture com essa gentalha!”. O que separa Dna. Florinda e Dna. Golitsyn são alguns quilômetros de oceano, alguns séculos e o penteado de cabelo.

Os Golitsyn, uma antiga família de nobres russos, fariam o possível para manterem-se afastados da gentalha, ou seja, dos russos. Ter nascido naquele país fora um acidente irreversível, no entanto, ainda poderiam evitar falar aquela língua e se misturar com aquela gente. Com exceção dos domingos e feriados, as crianças da família Golitsyn, como muitas outras de seu meio social, eram proibidas de falar russo, e caso a governanta francesa as pegasse falando aquela língua dos infernos, as puniria amarrando em volta do pescoço das crianças um pano vermelho em forma de língua, a língua do demônio. A princesa Ekaterina Golitsyn, por exemplo, só teve sete aulas de russo em toda a sua vida, provavelmente para ser capaz de dar ordens mínimas a alguns criados. Sua mãe desdenhava de tudo o que era russo, inclusive a literatura e dizia que Gógol era coisa para cocheiros.[1] “Gentalha, gentalha, gentalha!”

Mas Gógol era mesmo para cocheiros. Sua escrita refletia a sonoridade camponesa quase à perfeição e podia ser compreendida por qualquer um, inclusive cocheiros. Essa autenticidade fez com que a linguagem de suas obras fosse considerada por alguns como rude e grosseira, dentre eles Dna. Golitsyn, com certeza.

A mim, que não sou cocheira e nem princesa, e que vivo em outra época e lugar, a escrita de Gógol causou boa impressão.

Existem obras em que o autor realmente consegue nos fazer ouvir uma voz, um sotaque, uma cadência bem específica. O clássico exemplo na literatura brasileira é Guimarães Rosa, se você não ler Grande sertão: veredas ouvindo (inventando) a voz do mineiro sertanejo fica até mesmo difícil acompanhar a narrativa. Essa mesma sensação de ouvir alguém específico falar, eu senti lendo dois autores paraenses, Dalcídio Jurandir em A ponte do galo, e Edyr Augusto em Pssica. Estava ali impresso uma fala realmente parecida com a minha. Não terminei de ler nenhum desses dois livros, porém do pouco que li, não foi difícil perceber o trabalho dos autores em fazer a escrita falar. A aproximação maior da oralidade, no entanto, dá mesmo essa sensação de uma linguagem rude e grosseira, talvez com Gógol tenha acontecido algo parecido.

Mas não pude perceber a sonoridade camponesa na obra de Gógol e os motivos são óbvios:  estou bem distante do século XIX, não leio em russo, não sou e nem conheci camponeses. Mas dá pra notar a informalidade da narração e, em muitos momentos, o humor. O conto O capote, por exemplo, tem um “arre” logo na primeira oração: “No departamento… arre, é melhor não mencionar o departamento.” De cara o decoro está quebrado e para os que, como eu, não gostam de formalidades, o convite está aceito.

Quando certa vez Gógol foi visitar os tipógrafos que faziam a impressão das provas de Noites na granja ao pé de Dikanka, os surpreendeu na gargalhada: “Desculpe, sr. Gógol, é que o material que o senhor nos enviou é muito engraçado”. Em Noite de natal a gente ri até do demo, afinal nem o diabo escapa do frio inverno russo. Em uma gelada noite de inverno ele “pulava de uma pata a outra e soprava os punhos, procurando aquecer pelo menos um pouquinho as mãos geladas”, já que no inferno ele vivia “postado de touca diante duma fornalha como um verdadeiro mestre-cuca [que] frita os pecadores com a mesma satisfação que experimentam as mulheres quando fritam salame para o Natal”.

A edição de contos que eu li, O capote e outras histórias da editora 34, tem cinco histórias, as três primeiras se passam em São Petersburgo e seus personagens são típicos funcionários públicos atormentados por seus próprios medos e fantasias. As duas últimas, se aproximam mais dos contos folclóricos e é onde se vê claramente as raízes da narrativa oral nas obras de Gógol e seu gosto pelo folclore e pelas tradições camponesas de sua cidade natal na Ucrânia, Mirgorod.

Nikolai Gógol saiu de Mirgorod em 1828 para tentar a carreira literária em São Petersburgo, onde trabalhava como escriturário durante o dia e escrevia à noite. Nas cartas que enviava à mãe e à irmã pedia que elas lhe mandassem detalhes de canções e provérbios populares ucranianos e até mesmo algumas roupas camponesas. Isso o ajudaria a recriar em suas histórias um cenário que seria impossível de existir em São Petersburgo, uma cidade com aspirações europeias e jamais camponesas. Leiam O Capote e depois Noite de natal, a diferença de ambiente é clara. Aliás, Noite de natal me lembra as histórias de Pedro Malazartes que meu pai contava: peripécias, acontecimentos mágicos e violência tarantina.

Já em seus contos mais petersburgueses, o clima era outro. O humor e um certo nonsense permanecem, mas há no ambiente uma neblina fria da cidade fantasmagórica. São Petersburgo era uma cidade “mal-assombrada”. Considerada pelos russos como uma cidade irreal, alheia à Rússia, São Petersburgo poderia parecer opressora a um jovem imigrante como Gógol. Quando Pedro o grande fundou a cidade, seu desejo era fazer com que a Rússia se aproximasse do estilo de vida europeu e para isso criou leis que obrigavam os moradores da cidade a viverem exatamente do modo como ele achava que uma Rússia moderna deveria ser: sem barba e sem bárbaros.

São Petersburgo era uma cidade extremamente burocrática. Pedro criou uma tabela hierárquica do serviço público, organizada por ordem de nobreza: maior o status, maior o cargo. Diante disso os protocolos, as etiquetas e os uniformes eram uma parte importantíssima da vida em São Petersburgo. Para se ter uma ideia as instruções quanto ao uniforme de cada categoria funcional no serviço público eram fixadas por lei, isto é, havia uma lei que lhe dizia a cor, as listras e os botões da roupa que você vestia para ir trabalhar. É então nessa cidade real, porém um pouco absurda que situações irreais acontecem: um homem morre de tristeza porque lhe roubaram o capote, um homem quase morre de preocupação porque perdeu seu nariz, e um homem fica louco enquanto um cachorro escreve cartas.

Ao criar situações fantásticas como essas, Gógol está mostrando simplesmente que vivemos em um mundo louco e essa loucura pode nos destruir. É tão absurdo que é engraçado, mas é que é com as piadas que dizemos as maiores verdades.

No conto O diário de um louco, Akcenti Ivánovitch escuta duas cachorrinhas da alta sociedade conversando e mais tarde tem a brilhante ideia de interceptar as cartas trocadas entre elas na esperança de conseguir mais informações sobre a vida amorosa de sua dona. Na cidade onde eu moro uma coisa desse tipo seria também perfeitamente possível. Aqui os cachorros vivem em uma comunidade organizada e têm uma vida social bastante ativa, frequentam shoppings e academias, podem ir ao trabalho, se não tiverem ainda em idade adulta frequentam creches, passeiam com gps, dão festas de aniversário e curtem uma baladinha ou piscina de bolinhas de vez em quando. Mas não acho que hoje eles usem cartas, é mais provável que tenham algo como um Snoutbook ainda inacessível à linguagem humana. A pergunta é: se um cachorro pode ser gente, por que Akcenti Ivánovitch não pode ser o rei da Espanha?

Nem perder o nariz é algo tão incomum. O nariz do major Kovaliov certo dia deixou de comparecer à sua cara e foi aparecer na cara de outro. “O senhor está enganado, meu caro senhor. Eu tenho existência própria. E ademais não pode haver nenhuma ligação estreita entre nós.” – disse o Nariz. Hoje também já não se sabe se há mesmo uma ligação estreita entre nós e o nosso corpo, acredito que não demorará muito para ouvirmos as notícias de um nariz ou outro órgão qualquer que resolveu também ter sua própria vida.

Em O capote, Akáki Akákievitch tem um cargo baixo na hierarquia petersburguense, é um conselheiro titular e “como se sabe, é alvo das chacotas e galhofas de que se farta tudo quanto é escritor que tem o elogioso costume de cair em cima daqueles que não podem arreganhar os dentes”. Gógol era um conselheiro titular também. Em pleno inverno o capote de Akákievitch lhe deixa na mão, está velho e imprestável e por isso Akákievitch decide encomendar ao alfaiate um novo. As visitas ao alfaiate para tirar as medidas e fazer os ajustes vão lhe deixando cada vez mais ansioso por sua peça nova, como uma espécie de tímida corte prestada a uma amada na janela. O capote fica pronto e isso muda a sorte do pobre funcionário, ele é notado, convidado para uma festa e a vida começa a lhe parecer um pouco menos triste. Na volta da festa, no entanto, lhe roubam o casaco e batem nele. Ele pede ajuda a um alto funcionário para recuperar seu casaco, mas convenhamos, o capote de um conselheiro titular é uma preocupação demasiadamente fútil para um figurão. “Quem era exatamente esse figurão e que posto ocupava é coisa que até hoje estamos por saber. Devemos esclarecer que o figurão se tornara figurão bem recentemente e que antes disso era uma figura desimportante se comparado a outros muito mais importantes. Mas sempre se encontra um círculo de pessoas para quem se tornam importantes as coisas que aos olhos dos outros são desimportantes.” Enfim, o capote de Akákievitch não era importante, ou melhor, não é que não fosse importante é que o conselheiro titular não seguiu o protocolo correto, só isso: “Meu caro senhor, o senhor por acaso não conhece o regulamento? Não sabe onde se encontra? Como se encaminham as coisas? O senhor deveria ter antes apresentado uma solicitação à repartição; esta a enviaria ao chefe da seção, ao chefe do departamento, depois ao secretário e então o secretário a passaria para mim…” E mais: “O senhor por acaso não sabe com quem está falando? Será que não compreende diante de quem se encontra?”. É isso mesmo Akákievtich! Conheça o seu lugar e a sua posição! Gentalha, gentalha, gentalha!

Depois Akákievith morre e vira um fantasma. Pronto. É uma história fantástica, irreal, nada tem a ver com a realidade. Imagine só se coisas semelhantes aconteceriam por aqui!? Tinha que ser esse louco do Gógol mesmo, fica aí querendo arreganhar os dentes, mas não passa de um funcionariozinho qualquer, de um louco. Enfim, literatura para cocheiros, não recomendo, tesouro.

[1] Essa e outras informações históricas eu tirei do livro Uma história cultural da Rússia, de Orlando Figes, publicado pela Record.

 

 

Memórias de um caçador

Turguêniev_by_Repin

Retrato de Ivan Turguêniev por Ilya Repin.

Em março de 1852 Turguêniev recebeu autorização do príncipe Lvov,o censor moscovita, para imprimir a sua obra Memórias de um caçador. O escritor havia submetido o livro à análise do príncipe que era seu amigo pessoal e era tido como um censor mais brando do que o de São Petersburgo. A censura era um procedimento necessário na Rússia daquela época, já que passados apenas quatro anos desde a Revolução Francesa, a qual Turguêniev havia presenciado durante uma temporada em Paris, estabeleceu-se ali uma política de prevenção a ideias revolucionárias, e o clima político do Império não estava dos melhores quando em 1850 Turguêniev voltou à sua terra natal.

No mês seguinte, apareceu em Moscou uma homenagem fúnebre feita por Turguêniev ao escritor Nikolai Gógol, cujas obras estavam proibidas em São Petersburgo. Tal homenagem rendeu ao escritor a condenação à prisão domiciliar. A despeito de sua prisão, no entanto, Memórias de um caçador foi lançado em agosto desse mesmo ano, e foi muito bem recebido nos meios intelectuais russos, motivo pelo qual não demorou para que a censura cancelasse sua circulação e que Lvov fosse demitido do cargo de censor em Moscou.[1]Muitos dos contos que compõem o livro já haviam sido publicados anteriormente em revistas e passaram despercebidos pela censura. Isolados eram apenas algumas recordações prosaicas de um jovem caçador abastado. Reunidas, porém, as narrativas ganharam a coesão de uma causa comum; a vida russa vivida fora das datchas e palácios bem como os russos que viviam no lado de fora.

Nesse livro, Turguêniev narra histórias recolhidas de suas experiências de caçada no interior da Rússia. As histórias são prosaicas e os campos russos descritos de forma tão comovente que até mesmo eu, que nunca cacei e nunca conheci a estepe russa, sinto saudades das viagens em pleno verão à busca de galinholas. Porém, o motivo pelo qual o livro causou tanto rebuliço não foram as caçadas, mas sim a forma como os servos eram descritos nas histórias de Turguêniev e como eles, na verdade, acabaram assumindo o papel de protagonistas da maioria desses contos. Antes de Turguêniev, os servos eram apenas aquelas pessoas que estavam por ali, quase como as próprias aves que só são mencionadas porque ocorrem de serem elas o alvo dos caçadores, assim como ocorria de serem os servos aqueles que serviam o samovar, traziam os cavalos, montavam o acampamento, amamentavam as crianças. Em Memórias de um caçador, no entanto, os servos eram também pessoas de espírito; alguns inteligentes outros não, alguns bastante severos, outros de grande coração, espertos ou oprimidos; leais ou mentirosos.

O livro foi, então, considerado perigoso pois endossava uma ideia em voga na época, mas que não erado agrado de muitos, a libertação dos servos. Em uma conhecida carta ao escritor Nikolai Gógol[2], o crítico literário Vissarion Belinsky, mestre de Turguêniev, afirma que na Rússia de sua época haviam três grandes questões nacionais realmente importantes, vivas, uma delas era aniquilar a servidão. Para Belinsky a literatura deveria ajudar a nação a se desenvolver rumo à maturidade e civilidade, deveria, portanto, assumir um compromisso político. Fiel a seu mestre, tal visão de literatura estava certamente presente em Turguêniev ao escrever suas obras. Para a nossa sorte, no entanto, seu compromisso mais evidente é com a narração de suas histórias.

Embora conhecido por seu impacto na causa da libertação servil, em nenhum momento o livro fala diretamente sobre isso, aliás, ele não tem nem de longe um tom revolucionário. Sua grande força está justamente na naturalidade com que os servos aparecem como personagens e em como é praticamente impossível não se envolver com eles. No relatório sobre a obra produzido pela censura, dizia-se que um livro em que os proprietários de terra são achincalhados e em que os camponeses quanto mais livres melhores são, não pode trazer nenhum tipo de proveito ou satisfação ao leitor virtuoso. Bom, pode ser que eles estivessem enganados. Acontece que certa vez dois camponeses abordaram Turguêniev num trem, se curvaram à moda russa e o agradeceram em nome de todo o povo. [3]Isso foi depois de 1861, ano em que o czar Alexandre II aprovou reformas políticas que culminaram na libertação dos servos.

O povo russo. Esse era um tema que vinha se tornando cada vez mais comum na literatura russa do século XIX, mais especificamente depois da invasão francesa em 1812 e da Revolta Dezembrista em 1825. Desde então, a Rússia vivia uma espécie de nacionalismo e os intelectuais tentavam abandonar os hábitos europeus, franceses especialmente, e encontrar o verdadeiro “espírito russo”. Em busca da alma russa, Turguêniev soube juntar em uma só uma obra dois grandes “patrimônios” nacionais; a caça e o campo.

Quando Napoleão tomou Moscou em 1812, muitos nobres abandonaram a cidade e correram para suas propriedades no campo. Esse retorno ao campo aliado à busca de uma vida verdadeiramente russa, fez do início do século XIX a época de ouro das caçadas. Por meio da caça, os russos viviam intensamente a vida no campo e se dedicavam a uma tradição antiga de seu povo. Havia dois tipos de caçada, a simples e a formal. A caçada formal era aquela grandiosa, em que vai o nobre, seus companheiros, seus servos e seus cães em uma grande comitiva. A caçada simples é aquela em que vai o caçador a pé juntamente com seu cão fiel e um servo de sua confiança. São desse último tipo, as caçadas das memórias de Turguêniev. Os contos presentes nessa obra são, então, relatos dessas andanças do narrador – em nenhum momento denominado Turguêniev, há de se dizer-, algumas vezes acompanhado do servo Iermolai e seu cachorro Valetka. Visitando diferentes vilarejos, dormindo em hospedarias ou na casa de outros nobres, o narrador se depara com personagens curiosos; um médico que se apaixona por sua paciente, um servo que é melhor administrador que o seu senhor, uma serva paralítica que de nada reclama, um sobrinho interesseiro, crianças em volta da fogueira contando histórias de terror etc. Aliás, quando meu avô me viu lendo esse livro, me perguntou o título e assim que teve a resposta perdeu o interesse “história de caçador é que nem história de pescador, só mentira”.  Vai saber. Turguêniev era um nobre proprietário de terras da província de Oriol que amava a caça, tal como o simpático narrador dessas histórias; mas o quanto delas é memória e o quanto é fantasia, não sei.

O ambiente das caçadas simples, como as descritas por Turguêniev, contribuiu na certa para dar ao livro o ar igualitário que desagradou a censura. Embora haja claramente uma distinção de classe e de papéis entre o caçador e o seu servo, não deixa de haver ali uma relação de camaradagem. Quando ia caçar, o nobre russo deixava o conforto de seus palácios e se tornava um simples homem do campo que podia dormir no moinho mais próximo ou em um quartinho simples em alguma choupana.

O narrador-personagem dessas memórias aparece tão pouco no texto que suas minuciosas descrições aproximam a sua observação daquela de um narrador onisciente. São sempre descrições advindas de uma perspicaz e detalhada observação, seja dos personagens, seja da natureza e das caçadas. Não se encontrará no livro reflexões do narrador voltadas para si, monólogos interiores ou mesmo algum tipo de discurso indireto beirando o fluxo de consciência. Não há acesso direto aos pensamentos e sentimentos dos personagens, nem mesmo os do narrador. O papel de destaque dado aos seus personagens e não a si mesmo faz com que, ao final do livro, saibamos muito pouco sobre quem é, afinal, esse caçador. A despeito da falta de descrição da vida interior de seus personagens, é possível imaginar a interioridade de todos eles por suas ações; é como se o narrador nos dissesse “não preciso dizer quem era ele, apenas te direi o que ele fez”. Se pensarmos no impacto social da obra no que concerne à questão da servidão, vale dizer que não foi necessária uma palavra de ordem direta sobre a questão, bastou ao autor mostrar o que faziam os servos e como viviam para que o leitor chegasse à conclusão de que a servidão tolhia a liberdade de pessoas inventivas, autônomas e, ao mesmo tempo, sofridas.

No entanto, esse narrador nos conta tão bem suas histórias que nos entretemos com ela sem atentar para quem as conta. Acreditem quando eu digo que estamos diante de um narrador encantador, a sensação de ler esses contos é mesmo a de estar em uma roda diante da fogueira. Logo no primeiro conto, Khor e Kalínitch, já estamos confortáveis em nossos lugares a ouvir a história desses dois servos tão diferentes um do outro, um com o típico aspecto das pessoas de Oriol e outro com o das pessoas de Kalunga, que é como se estivéssemos ouvindo sobre duas espécies fantásticas diferentes como hobbits e anões. O primeiro conto é bom, mas o segundo é maravilhoso. Em Iermolai e a moleira, depois de nos explicar o que é uma campana com uma descrição literária perfeita, o nosso caçador apresentará o servo Iermolai e seu fiel cão perdigueiro Valetka, “uma criatura maravilhosa que Iermolai jamais alimentava”: “Eu lá vou alimentar cão – sentenciava -, o cão, além disso, é um bicho esperto, acha seu próprio alimento sozinho.” Iermolai era servo de um latifundiário vizinho, e estava encarregado de prover à mesa do patrão dois pares de tetrazes e perdizes uma vez por mês, feito isso, lhe era permitido viver onde e como quisesse, de forma bastante similar ao seu cachorro.

Outro personagem de quem gosto bastante é Tchertopkhánov, que aparece em dois contos já mais ao final do livro. Ele é um nobre falido, de bom coração, mas de pavio curtíssimo e muito orgulhoso. Suas desventuras narradas em O fim de Tchertopkhánov, são tristemente engraçadas, sua história com o cavalo dado a ele por um judeu, é uma comédia, ao mesmo tempo que tem também um ar de fábula e tragédia. Outro conto muito bom – e que sempre é comentado já que tem um filme de Serguei Eisenstein com o mesmo nome – é O prado de Biéjin. Sobre o filme não sei nada, mas do conto posso dizer alguma coisa. Ele começa com mais uma das belas descrições de Turguêniev sobre um dia de verão nas estepes russas, mas o conto é sobre um grupo de meninos, de quatorze anos mais ou menos, que estão sentados ao redor de uma fogueira contando histórias de fantasmas e bruxas. As histórias são comuns, fulano viu uma vez um domovôi, um duende doméstico, outro conta uma história que ouviu do pai sobre um homem encantado por uma ninfa, e nessa os meninos vão noite à dentro e o leitor ali, ao pé da fogueira com eles; assim como o caçador finge dormir para deixar os garotos à vontade e assim ouvir suas histórias, nós estamos ali silenciosos atrás da página como que ouvindo o crepitar do fogo, olhando o céu estrelado, sentindo o vento que sopra nos prados e entretidos com histórias nas quais não acreditamos.

Há várias outras histórias e personagens para conhecer nessa obra, não há porque comentar todos. A grande força dos contos de Memórias de um caçador não está nos enredos, nem mesmo há neles um explícito cunho político, apesar de sua polêmica recepção; a força da obra está em “ouvir” Turguêniev “falar”. Tanto que a melhor forma de convencê-los a ler essa obra seria citá-la e não comentá-la. Tentei nesse texto convencê-los a fazer essa leitura pela importância histórica, pela curiosidade polêmica, mas talvez eu deva citar a frase de Tolstói que me levou até ele, em primeiro lugar: “li as Memórias de um caçador de Turguêniev, e como é difícil escrever depois dele”.

Recomendo esse livro, então, pois com ele foi possível ir a um país distante, conduzida por um simpático contador de histórias, ver belas paisagens, conhecer pessoas engraçadas e recordar memórias que nunca tive. Hoje muito distante do leitor russo do século XIX e muito distante desse país, li o livro como se fossem episódios das minhas férias de verão durante a infância. Aliás, nostalgia é uma boa palavra para esse livro, ou mesmo solidão, a boa solidão, aquela de estar perdido na natureza e em seus pensamentos. O último conto termina aliás com uma frase que achei perfeita “na primavera é fácil se separar, na primavera até as pessoas felizes são atraídas pela distância….” Eu me senti assim, atraída pela distância. Agora que termino esse texto, encerro minha leitura, coloco na folha de rosto a data de hoje, fecho o livro e o guardo na estante, sinto saudades das caçadas e espero pela primavera.

[1]Informações retiradas do texto Turguêniev apresenta suas armas do tradutor Irineu Franco Perpetuo. O texto acompanha a edição da obra da Editora 34.

[2]Há uma tradução da carta na íntegra em um artigo de Renata Esteves publicado por ocasião da ABRALIC de 2008, o texto está disponível em: http://www.abralic.org.br/eventos/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/036/RENATA_ESTEVES.pdf.

[3]Essa e outras informações históricas eu tirei do livro Uma história cultural da Rússia, de Orlando Figes, publicado pela Record.

Uma jornada russa

Em janeiro de 2017 tive a oportunidade de visitar São Petersburgo, na Rússia. Fiquei feliz em saber que de uma lista grande de nacionalidades que precisariam de visto para entrar lá, a brasileira não era uma delas. Era só chegar, mostrar meu passaporte brasileiro e pronto. Quando, no aeroporto, chegou minha vez na fila do balcão de imigração, a funcionária olhou meu passaporte, olhou pra mim e disse “smile”. Não era o que eu esperava, fiquei confusa e ela percebeu. “Você está sorrindo na foto do seu passaporte, sorria então”. Gostei disso e sorri de verdade, gosto quando as pessoas fazem coisas que me surpreendem, e a Rússia foi pra mim uma surpresa, desde aquele dia até hoje.

Gostei muito de São Petersburgo, especialmente depois de ter estado um tempo na Suécia entre Upsália e Estocolmo, além de alguns dias em Copenhague, onde tudo é tão perfeito e organizado que o barulho nas estações de metrô de São Petersburgo e a janela suja dos ônibus fizeram eu me sentir mais perto do Brasil. Fiquei lá apenas cinco dias, em uma típica estadia turística, mas o suficiente para me sentir, se não em casa, na casa de parentes, pelo menos.

“Eu sou Pedro, e sobre esta pedra construirei a melhor, a maior, a mais bonita cidade do mundo e as portas do Ocidente não prevalecerão contra ela”. Bem que Pedro o grande poderia ter dito isso, combinaria com seu ego e com a promessa que era São Petersburgo. Mas não foi assim. Em 1703, procurando um lugar para construir um forte contra os suecos, Pedro encontrou um terreno pantanoso, já abandonado há certo tempo, mas com um rio largo que fluía para o mar Báltico. Arrumou duas tiras de turfa em forma de cruz sobre o chão pantanoso e nada pedregoso e disse apenas “aqui haverá uma cidade”.[1] Assim surgiu a cidade onde, um século depois, viveriam Raskólnikov e Anna Kariênina, e onde eu, dois séculos depois, trocaria sorrisos com a funcionária da imigração.

Depois de ser surpreendida com uma estadia inesperada em São Petersburgo, com uma fala inesperada da funcionária, com a beleza e a história da cidade, fui surpreendida também com uma obra russa magnífica, Anna Kariênina. Queria ter lido algo do Tolstói durante a minha estadia por lá, enfim, pra combinar… Mas não deu tempo e não tive interesse. No final do ano de 2017, no entanto, depois de ter lido a quadrilogia da Elena Ferrante, quis ler mais livros com personagens femininos e peguei o Anna Kariênina. Gostei tanto desse livro que depois comecei a ler um livro de História da Rússia e outros pequenos romances do Tolstói, e tudo o que era russo começou a chamar minha atenção.

Percebi, então, que me lançava em uma pequena jornada russa e quis fazer uma espécie de diário de bordo. É claro que a minha jornada é puramente livresca e, por sinal, passa bem longe do futebol, mas já que esse ano a Rússia estará na vitrine em função da Copa do Mundo, não custa nada escalar um time de ilustres fantasmas. Espero trazer uma boa seleção.

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[1] As informações históricas foram tiradas de: Orlando Figes, História cultural da Rússia. Editora Record. 2017. p.33.

Sete desafios para ser Rei (comentário)

Sete desafios para ser rei_ Jan Terlouw_R$ 30,90

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No último post falei de uma volta às raízes, uma volta à experiência de leitura dos meus dias mais juvenis. Ainda naquele fim de semana terminei de ler Sete desafios para ser rei, e desde então o livro ficou estacionado aqui na minha mesa esperando a escrita de um post sobre ele. Eu pensei que seria legal escrever um pouco sobre aquilo que estou lendo, mas a preguiça e a incerteza de que isso seja válido, quase sempre, me impedem.

Desculpas e enrolações à parte, aqui vai um breve comentário sobre este livro na esperança de que sirva a alguém e de que, talvez, alguém se anime a lê-lo

O autor do livro, Jan Terlouw é um dos mais importantes autores de livros juvenis na Holanda, é o que diz a contracapa do livro editado pela Ática e traduzido por Tarcísio Lage e Iveline Lage. Terlouw é formado em Física e depois de atuar 13 anos como pesquisador na área se tornou político. As duas coisas aparecem no livro, um pouquinho de Física e bastante de Política.

Depois da morte do seu último rei, Katoren já está há 17 anos sem alguém para ocupar este cargo. Quem governa são os ministros que, ao que tudo indica, não andam se empenhando muito para buscar um novo rei para o povo.

A história começa quando um jovem decide se candidatar ao cargo; ele quer ser o futuro rei de Katoren:

-Ministro Recto-disse Stach-, Vossas Excelências tiveram dezesste anos para escolher um novo rei, e até agora nada ficou decidido. A minha pergunta é: o que uma pessoa precisa fazer para se tornar rei de Katoren?

Os ministros (Ministro da Honestidade, Ministro Hermano, Ministro da Eficiência, Ministro da Dureza e outros mais) escolhem 7 desafios aparentemente impossíveis de serem resolvidos para que o jovem Stach os cumpra. São desafios de governo, isto é, o jovem terá que resolver alguns dos problemas enfrentados pelas cidades do reino. Stach consegue resolver cada um deles, pois sempre procura entender profundamente cada problema e ir além do que se diz deles. Com este espírito inovador e persistente ele vai conquistando a simpatia do povo e chegando perto da sua almejada coroa.

É um livro que tem tudo para ser chato; um velho político tentando ensinar princípios de governo através de um conto infantil. Mas não, não é chato. Os desafios são muito criativos e engraçados e você fica mesmo curioso para saber como Stach vai resolvê-los. Os desafios chegam a ser um exercício de lógica, pois não existem palavras mágicas nem lutas de espadas, os problemas “impossíveis” são na verdade bem fáceis de serem resolvidos quando se tem alguém de fato comprometido em encotrar uma solução para eles.

As falas e atitudes dos ministros são uma piada à parte, pois eles representam diferentes personalidades políticas e formas de governo. Embora sejam os ministros os “antagonistas” não são pintados necessariamente como vilões, são os que querem permanecer no poder algo afinal bem próprio do jogo político.

Enfim, um livro muito agradável e inteligente. Recomendo a leitura por hobby, mas se você for pai ou professor vai poder também ter uma conversa bem legal com seus jovens.